E aí?
Esse texto não é exatamente sobre guitarra. Mas ele é importante — e eu preciso que ele circule.
Fui diagnosticado com a Síndrome de Chiari tipo 1: uma má-formação na base do crânio, bem atrás da cabeça. Nasci com isso. E, por não ser daquelas doenças que a gente vê em campanhas o tempo todo, quase ninguém fala. O resultado? Tem gente vivendo sintomas estranhos por anos sem nome nenhum pra o que está acontecendo.
Aviso importante: o que você lê aqui é o meu relato pessoal, em linguagem de paciente. Não sou médico, não estou dando diagnóstico e isso não substitui consulta com um profissional de saúde. Se algo no seu corpo não fecha, procure atendimento.
## O que aconteceu comigo
No meu caso, a Chiari veio acompanhada de seringomielia. Explicando do jeito leigo que eu consigo: a gente tem o liquor — aquele líquido que sobe e desce pela coluna, “reciclando” o sistema. Na base do crânio, havia uma espécie de entupimento. Parte do líquido não passava direito. Aí o canal por onde ele circula dentro da medula foi estufando. A medula manda informação pro corpo inteiro. Quando isso falha, o corpo sente.
Eu senti.
Perdi a voz — o lado esquerdo das cordas vocais paralisou. Quem me conhece sabe: eu cantava também. Parei. O lado esquerdo do corpo ficou menos sensível. Às vezes eu queimo a mão porque demoro a perceber que está quente. Sem diagnóstico, a longo prazo, o risco era maior ainda: inclusive parar de andar.
## A odisséia até alguém olhar de verdade
Eu fui em vários médicos. Fiz teste do sono. Fiz teste de inclinação. Continuava cansado, com dor de cabeça, cada vez mais pra baixo — e sem resposta.
A virada veio com o otorrino, o Dr. Bruno. Ele olhou a perda de voz, os engasgos, e disse que, da parte dele, não era nada de otorrino. Mas também disse que não ia me deixar ir embora sem resposta. Mandou fazer tomografia e, depois, ressonância. O laudo veio. Se não fosse aquilo, eu estaria procurando até hoje.
Galera: às vezes o diagnóstico não está na especialidade “óbvia”. Às vezes está em alguém que se recusa a encerrar a conversa.
## A cirurgia — e o que ficou
A cirurgia, no fundo, foi um ajuste mecânico: desobstruir pra o liquor voltar a escoar. No meu caso, funcionou. Graças a Deus. A seringomielia tende a reduzir quando o fluxo volta. Mas o que já tinha “fixado” em sequela não some por mágica. Continuo com desequilíbrio, com a perda de voz, com a dormência do lado esquerdo — menos do que poderia ter sido, mas está aí.
O tratamento foi no INC, em Curitiba. Sou grato à equipe toda, e à família e aos amigos que bancaram essa luta comigo.
## Guitarra como fisioterapia
Hoje eu uso a guitarra como fisioterapia. Não só como trabalho, não só como identidade — como forma de recuperar movimento, sensibilidade, presença. O que mais me ajudou na recuperação foi a condição física: não fumo, bebo muito pouco, me alimento bem, faço atividade. Isso conta. Conta muito.
E tem outra coisa que rodeia doença crônica ou mal diagnosticada: a cabeça pesa. Depressão e ansiedade aparecem no entorno — eu tive, e conversei com outras pessoas que passaram por Chiari e relataram o mesmo. Não é drama. É o corpo e a mente respondendo a um longo tempo sem resposta.
## Por que eu estou contando isso
Depois que eu falei da doença nas redes, apareceram pessoas — inclusive fora da música — contando a própria cirurgia, a própria recuperação (umas melhores, outras nem tanto). Pra muita gente, era a primeira vez que ouvia o nome.
Se a sua saúde está esquisita e ninguém consegue te dar uma resposta que feche, não custa olhar a parte craniana e neurológica. As coisas, às vezes, começam ali.
Se você já teve Chiari ou seringomielia, ou conhece alguém que teve, compartilha. Comenta. Encaminha. Tem gente se incapacitando por falta de diagnóstico — e divulgação salva tempo, e tempo salva corpo.
Ósculos e amplexos!
Vika