Do rock!
Guitarrista tem fama de ser um bicho estranho. Egoísta, mal-agradecido, cheio de manias. Acha que é o mais importante da banda, sobe o volume do amplificador escondido depois que o som já foi passado, guarda palheta velha como quem guarda relíquia, jura que não tem influência nenhuma (como se tivesse nascido sabendo tocar). Fala que curte jazz só pra parecer mais profundo. Continua fazendo aula até hoje, mas pede pro professor não contar pra ninguém.
E olha, boa parte disso eu nem acho tão grave assim. Guardar palheta velha, aliás, eu acho que devia ser regra. Mas tem uma coisa que eu realmente não engulo: quando o professor complica as coisas de propósito só pra dificultar a vida de quem tá começando.
Você já deve ter ouvido falar de estoicismo — aquela filosofia grega antiga, associada a nomes como Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio. E talvez esteja se perguntando o que isso tem a ver com pegar uma guitarra e tocar um riff. Mais do que parece.
Os estoicos tinham uma ideia central que resume bem: existem coisas que estão sob o seu controle, e coisas que não estão. A sabedoria está em focar toda sua energia nas primeiras e fazer as pazes com as segundas.
Na guitarra, isso é praticamente um manual de sobrevivência.
O QUE VOCÊ CONTROLA
Você controla se vai pegar o instrumento hoje. Controla quanto tempo vai dedicar ao exercício, se vai praticar devagar antes de tentar rápido, se vai gravar seu progresso pra ouvir depois. Controla se vai voltar amanhã mesmo depois de um dia ruim.
O que você não controla é o quanto tempo vai levar até aquele solo sair redondo. Não controla se seus dedos vão doer nas primeiras semanas. Não controla se um vídeo de alguém tocando algo impressionante vai aparecer no seu feed bem no dia em que você errou uma escala pela décima vez.
Os estoicos diriam: pare de gastar energia se frustrando com o que não depende de você, e coloque essa energia no que depende — que é, no fim das contas, simplesmente continuar tentando.
DISCIPLINA, NÃO MOTIVAÇÃO
Marco Aurélio escrevia pra si mesmo, todas as manhãs, lembretes pra se levantar e fazer o trabalho — mesmo sem vontade. Ele sabia que motivação é passageira. Disciplina é o que sobra quando a motivação vai embora.
Isso talvez seja a lição estoica mais direta pra quem está aprendendo (ou retomando) guitarra depois dos 40. Não vai ter vontade todo santo dia. Vai ter dia de cansaço, dia de trabalho puxado, dia em que a última coisa que você quer é encostar o dedo numa corda. E tudo bem — o ponto não é sentir vontade sempre, é sentar e tocar mesmo assim, mesmo que sejam só dez minutos. É a mesma lógica que aprendi treinando pra minha meia maratona [LINK: https://blog.vikaviante.com.br/o-que-a-meia-maratona-me-ensinou-sobre-aprender-guitarra/]: ninguém corre 21km com motivação o tempo todo, corre com disciplina.
AMOR FATI: ABRAÇAR O PROCESSO, ERROS INCLUÍDOS
Existe uma expressão estoica, amor fati — “amor ao destino” — que fala sobre aceitar e até abraçar tudo que acontece, inclusive o que dá errado. Aplicado à guitarra: aquele dia que você travou numa transição de acorde não foi um fracasso, foi o processo funcionando exatamente como deveria. Ninguém pula da primeira aula direto pro solo perfeito. O tropeço faz parte do caminho, não é desvio dele.
O FOCO NO PRESENTE
Outra ideia central do estoicismo é viver o momento presente — não ficar preso ao “eu devia estar tocando melhor a essa altura” nem projetando um futuro onde finalmente vai ser bom o suficiente. Cada vez que você senta com o instrumento, esse é o único momento que importa. Não é sobre chegar lá. É sobre estar aqui, agora, com a guitarra na mão.
Isso é especialmente valioso pra quem carrega alguma vergonha de estar “recomeçando tarde” ou se compara com quem toca desde criança. Os estoicos te lembrariam: o único ponto de comparação relevante é você ontem.
NO FIM DAS CONTAS
Guitarra e estoicismo têm mais em comum do que parece à primeira vista — ambos são sobre constância, sobre focar no que você controla, sobre aceitar o processo com seus tropeços, e sobre voltar todos os dias, mesmo sem vontade. Se Marco Aurélio conseguia se levantar todo dia pra governar um império sem motivação nenhuma, você consegue tirar dez minutos pra tocar aquela escala mais uma vez.