Essência

Quando eu ficar velho

25 de junho de 2026  ·  Vika Viante
Quando eu ficar velho

Quando você ficar velho, o que vão dizer de você?

Essa pergunta me assombra desde criança — mas não da forma que você imagina. Não é angústia. É quase uma provocação que aprendi a gostar.

Cresci ouvindo advertências. Cada escolha que eu pensava em fazer vinha acompanhada de um aviso severo: não faça tatuagens, você vai se arrepender quando ficar velho. Não leve o rock tão a sério, isso é só uma fase. Como se o envelhecimento fosse uma espécie de tribunal onde todas as nossas escolhas seriam julgadas — e condenadas.

O medo que a sociedade planta em você

Desde cedo a sociedade nos ensina a temer o inevitável. E quando você fica velho, as pessoas perguntam com um misto de surpresa e desaprovação: olha lá, o velho de bicicleta. Veja o tipo do velho de óculos escuro. Que tal o velho de cabelo pintado.

Percebi que a surpresa não é pelo que fazemos — é pelo fato de continuarmos a fazê-lo. Como se a velhice fosse uma linha de chegada onde a gente deveria parar de ser quem é.

O arrependimento prometido, descobri, nunca foi realmente sobre a tinta na pele. Era sobre o medo disfarçado de conselho. Era sobre o desconforto que a autenticidade alheia causa em quem nunca se permitiu ser autêntico.

Uma noite em Brasília que mudou algo em mim

Semana passada eu estava num quarto de hotel em Brasília com o Netão — baterista do Mythologyca e parceiro de trabalho. Tínhamos viajado de madrugada, passado o dia todo trabalhando e estávamos destruídos.

Aí a gente colocou as transmissões dos shows do Hellfest no YouTube. Assistimos alguns e no final chegou a vez do show do Anthrax.

E foi aí que tudo começou.

Aqueles velhos metaleiros estavam mandando ver. Tocando as mesmas músicas da nossa adolescência com a mesma energia — talvez maior ainda. Sem dúvida alguma que eles não queriam estar fazendo outra coisa. Nesse longo caminho já tentaram, e voltaram.

Em questão de minutos, eu e o Netão saímos do estado de empreendedores exaustos e viramos jovens eufóricos e arrepiados na frente de uma televisão de hotel. Aquele sentimento foi genuíno e inexplicável. Ele simplesmente aconteceu.

E eu pensei: definitivamente eu quero ficar velho igual a esses caras.

O que o Anthrax me lembrou sobre o Younger’s

Cresci ouvindo que o rock seria só uma fase. Ver o Anthrax em 2025 tocando com aquela entrega toda mostra que mentiram pra mim.

A Comunidade Younger’s e toda essa ideia de trazer guitarra pra tiozão é sobre exatamente isso. É sobre o resgate da alma. É sobre um sentimento que, na verdade, nunca foi embora — só ficou guardado sob camadas de responsabilidade, julgamento alheio e frases como “você vai se arrepender quando ficar velho”.

Quando idealizei tudo isso, sempre tive plena consciência de que era algo sobre pertencimento. Eu não faço as coisas que o Malmsteen faz na guitarra. Mas tem coisas que eu faço pelos meus alunos que ele também não faria do jeito que eu faço.

Que tipo de velho você quer ser?

Cheguei à conclusão: quando for realmente velho, falarão de mim de qualquer maneira. As vozes que ecoam julgamentos talvez nunca se aquietem.

Mas a verdade é que não é o velho que incomoda — é a audácia de viver com autenticidade.

Então decidi: se é para ser comentado, que seja como o velho massa. Aquele com tatuagens que toca guitarra no porão de casa, que não tem medo de ser verdadeiro consigo mesmo.

O tempo não para. Todos nós, cedo ou tarde, seremos os velhos na fotografia. Por que não escolher ser um velho feliz e autêntico?

Que cada ruga seja o traço de uma vida vivida sem reservas. Que cada cabelo branco seja um lembrete das aventuras que ousamos viver.

Não há como evitar o envelhecimento. Mas está em nossas mãos decidir como vamos envelhecer.

Quando você ficar velho, que suas histórias sejam tão coloridas quanto as tintas que você escolheu para a sua pele. Que a sua velhice seja um retrato vibrante de uma vida plenamente vivida.

Ósculos e amplexos! Vika

← Voltar pra home